sábado, 1 de dezembro de 2012

Num canto qualquer da vida



Num canto qualquer da vida, esconde-se a alma a ser decifrada. Esconde-se a alma a ser lida, transcrita em atos, tatos e contatos. Num canto qualquer da vida, está o encontro das almas ainda a serem decifradas. Num canto qualquer da vida, a lua brilha em atmosfera fosfórica como dizia o poeta frances.  

Num canto qualquer da lua, encontra-se a vida  que pulsa em ritmo alucinante. Num canto qualquer da vida, a palavra aguarda para ser descoberta e inventada em frases complexas que traduzem o encontro improvável da vida que pulsa com a vida que desabrocha.

Drummond dizia que não se deve brigar com a palavra. Tinha razão o poeta, pois  a palavra traduz a vida . A palavra é atraída pela palavra, estando elas ou não em frases conexas. A conexão com a vida está na palavra que se juntou a outra e mais outra e virou poema num canto qualquer da vida. 

Num canto qualquer do poema está a palavra dita e a não dita. Num canto qualquer da vida está a própria vida ensolarada depois da lua que caiu. Num canto qualquer da vida estou eu, a me decifrar sob a força das palavras.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Absurdo da vida


"Também eu me sinto pronto a reviver tudo, como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que fora feliz e ainda o era, para que tudo se consumasse. Para que eu me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução – e que me recebessem com gritos de ódio".

A frase aí do Camus traduz um pouco essa coisa de viver, reviver, renascer, reinventar. Eita tarefa difícil, mas necessária. Afinal, vivos estamos e o sol brilha como nunca lá fora e há que se permitir invadir pelo sol, que deixará marcas a serem descobertas no íntimo toque, como sinal da vida que renasce.

Então, que venham os espectadores do Camus a assitirem a execução com seus gritos de ódio. De preferência, palavras gritadas. Ou apenas palavras.  Ao vento, talvez. Mas o vento é fraco, então as palavras tendem a cair logo ali, pertinho. Usem-nas como quiserem. Ou deixem-nas ali, bem quietinhas, a espera da ventania de verão. É o absurdo da  vida a ser descoberto.

Mais Camus: "Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim, mas apenas um começo...".

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O lado de lá


Mortos. E se eu estivesse morto? Poderia estar agora escrevendo um blog psicografado. Poderia observar tudo lá de cima e mandar meu recado via ciberespaço. "Aqui em cima é um inferno...tô derretendo e esse diabo não pára de espetar o tridente na minha bunda", ou "isso aqui é um paraíso, e esses anjos idiotas não param de tocar essa harpa ridícula". Quem comentaria num blog psicografado? Os mortos ou os vivos? Poderia Ter links para um ou para outro. Seria interessante essa troca de experiências inter...inter...inter o quê mesmo? Intermundos? Que seja. Já pensou como seria? Que bobagem...é não Ter o que blogar mesmo. Azar de vocês, meus parcos visitantes.

Continuando...
Finados vem de finar, que tanto pode ser acabar, findar, como ter grande desejo, querer intensamente. É interessante essa dualidade de sentidos. Horrível mesmo é a definição de defunto: "livrar-se de, executar, cumprir, livrar-se de dívida, pagar". Até que faz sentido. E o que dizer da expressão "beber o defunto"? É horrível, mas o significado é interessante. É uma espécie de velório animado, com muita comida e bebida. No México, o Dia dos Mortos é uma das maiores celebrações. Dizem que todos cantam, comem e bebem em homenagem aos mortos. E olha só: A comida mais famosa dessa festa são caveirinhas sorridentes feitas de açúcar ou chocolate e decoradas com brilhos. Cada docinho leva o nome de um parente falecido da família.

Bom, desejo a todos os mortos, um feliz dia de finados. E não façam nada que possam se arrepender depois, quando voltarem.

Ah...a foto é de um agricultor mexicano recolhendo a flor zempoaxochitl -conhecida como a flor dos mortos, na véspera do feriado de Finados. Esta flor é da mesma família das calêndulas e dos crisântemos.

domingo, 28 de outubro de 2012

Felicidade às avessas


É, mesmo pelo avesso, parece que a cidade dormirá feliz. Assim quis a imensa maioria. O que faltou para a estrela brilhar? Alma, coração, bandeira espontânea. O que sobrou: militäncia paga nas esquinas segurando bandeiras sem nenhuma   convicção. Sobrou desilusão    com um projeto que nasceu liso, limpo, útópico,  puro mas que ao longo do tempo entregou-se ao sistema para sobreviver nele. 

Sou do tempo em que para colocar bandeira do meu candidato no carro, tinha que pagar por ela, e pagava com gosto. Sou do tempo da política feita com muita paixao e pouco dinheiro. Hoje, ao contrário, só se faz campanha com muito dinheiro e nenhuma paixao.  

Mas mesmo assim precisamos dormir felizes, porque política nao é sinonimo de eleicao tao somente. Política é a pratica cotidiana da solidariedade, da busca diária pelo prazer comum. Respirar é um ato político, entao, respiremos fundo e vamos começar tudo de novo, fazendo, de cada ato da vida, uma  ação política. 

Virão outros outubros?

"Outros outubros virão, outras manhãs...plenas de sol e de luz". Nós, estudantes da esquerda, militantes e agitadores em geral, dizíamos que essa música era uma referência à revolução bolchevique. Fernando Brant, o autor, nunca assumiu isso, mas nós cantávamos aos quatro ventos...quem sabe não acontecia de no Brasil o carnaval ser transformado em barricadas revolucionárias...sabe-se lá.  

O tempo passou e os outros outubros não vieram.

 

sábado, 27 de outubro de 2012

Neste domingo, a minha cidade dormirá feliz



Amanhã, quando acordar, antes de ir a sua seção eleitoral, dê uma espiadela na janela do tempo e observe que ele passou rápido demais, tão rápido que a cidade parece a mesma de quatro anos atrás, ou de oito anos , se não estiver pior.

Amanhã, o dia vai nascer angustiado,  mas vai terminar sorrindo, porque as urnas estarão   recheadas de votos que mudarão radicalmente o cotidiano da cidade a partir do ano que vem.  

Amanhã, a minha  cidade dormirá  mais feliz  porque o velho travestido estará derrotado por aqueles que sonham com uma cidade melhor e poderão, enfim, olhar para o horizonte e sonhar um sonho possível. O sonho de uma cidade que sorri.  O velho com cara de menino finalmente terá sua  máscara arrancada e assumirá sua real identidade, a mesma  que deixou   nossa cidade mais triste e sombria.

Amanhã, a minha cidade sorrirá antes do sol se esconder, porque as urnas dirão que a partir do ano que vem estaremos prontos para o recomeço. Sim, recomeço, porque a minha cidade está carcomida pela política da velha elite que há muito parece se esforçar para mante-la triste,  Então,  é preciso recomeçar. É preciso abrir a janela e deixar o sol entrar para espantar o mofo e os morcegos que insistem em sugar nossa energia ao longo dos últimos anos e que ainda querem sugar até a última gota.

A  minha cidade merece, enfim, dias mais coloridos. A minha cidade quer ver voando por aí borboletas coloridas, não morcegos sanguessugas.

A minha cidade merece respirar. A minha cidade quer renascer e viver novos tempos. A minha cidade quer um longo banho, pois está  imunda. A minha cidade estará, a partir de amanhã, ao final dia ,  definitivamente renovada e feliz, contando as horas para janeiro chegar, e, com ele, a alegria das inúmeras possibilidades que virão com este novo e promissor tempo.

A minha cidade merece uma  real mudança, e esta mudança tem nome: MARRONI PREFEITO.  



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Ponteiros idiotas, que não param nunca



Vinte e três de dez, e cá estou eu de novo, às voltas com ele, o tempo. Tempo, tempo...quem o mede? Quanto tempo leva um ano para ficarmos mais velhos? Velho "é os trapo", dizia minha vó pegando sol na praia aos 90, com os braços esticados "pra queimar parelho". Então, não me convence esta passagem biológica. Mas também não resisto e dou uma espiadela para trás, de canto de olho, e vejo que ele, o tempo, foi-se...ou veio, não sei. Marcas? Muitas. Mas quem marca o tempo? Vinte e três de dez. 
Olha ele aí de novo, a marcar a passagem. O primeiro que me vem à lembrança foi o dos cinco, que chegou embrulhado num pacote lindo a esconder um caminhão de madeira, enorme, azul e muito pesado. Tenho a nítida impressão de que vim ao mundo de carona naquele caminhão. O menino de calças-curtas na boléia do pesado Mercedão azul. 
Tempo, tempo...quem o mede? A concretude do relógio me irrita profundamente (não param nunca aqueles ponteiros idiotas, que a todo momento me dizem que o último segundo já não é mais). E o sol passa todos os dias à mesma hora pela minha janela, jogando na minha cara que o espelho é liso e que o caminhão de madeira já não existe mais. Mas há o meu tempo, interno, a ressoar sem ponteiros. É o tempo medido por mim mesmo em infinitas e íntimas badaladas. Vinte e três de dez de mil novecentos e...não, não. Não vale a pena marcar. Dois mil e doze é hoje, sem tempo a perder. 
Vinte e três de dez, de novo.  Ainda estou por aqui, por aí, pulsando, tentando me decifrar. O tempo passa, mas não decifra por si. Amanhã já é outro ano, anunciando o enigma de mais dias que virão circularmente, numa estranha espiral em que eu deslizo e de quando em quando, marco a passagem, fazendo pedidos, fazendo acordos com ele, o tempo.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Reticências


"Eu acho que não sei fechar ciclos, colocar pontos finais. Comigo são sempre vírgulas, aspas, reticências." (Caio Fernando Abreu)

Este blog anda tão sem palavras que até justifica o nome, apesar do nome não ter nada a ver com isso, e sim com o livro sem palavras da Clarice...mas a explicação até cabe nesse momento, literalmente, sem palavras, ou seja, mudo ando e mudo ficarei no aconchego da concha, pois troquei o ponto final da frase pelas reticências..., quer dizer, elas, as  reticências, permitem fantasiar, divagar, continuar, sonhar... elas põem um fim ao fim-de-frase e colocam um novo recomeço logo ali, onde o ponto antes colocava um ponto-final em alguma história, mas elas, as reticências, resistem para estimular nossa criatividade e fazer parte do imaginário humano - demasiado humano como diria Nietzche....já que o simbólico "3 pontinhos" aponta para o nada e o tudo, para a sensação das infinitas possibilidades, ou para nenhuma, sim, ou, quem sabe, para o mundo de Alice ou, ainda, para os sonhos quixotescos onde todas as possibilidades são possíveis, como uma sobrancelha que levanta quando não sabe a resposta à pergunta que não foi feita...
O sempalavras tá sem respostas à falta de palavras, mas tenta respondê-las com reticências...elas, tão detestadas pela ciência que só admite conclusões e pontos finais, nada de possibilidades ou duplo sentido...não, não, aqui o sentido é duplo e o ponto, triplo... as idéias não são friamente assassinadas por um maldito ponto final, e vale a continuidade de quem passa por aqui, ou não...talvez...o que virá?...melhor ser infinito do que definitivo e pontual, assim são eles também, os sonhos, que não envelhecem segundo o Beto Guedes, pois são feitos de reticências e acontecem com a possibilidade de serem materializados, não num ponto final ou sonho final, mas em outros e outros e outros...
Eles, os três pontinhos têm até verbo no dicionário, sabiam? Reticenciar...tá lá no Aurelião: “Exprimir de modo reticente, incompleto”...a meu ver, uma fragilíssima definição, pois nada mais completo do que as reticências, que permitem a divagação, aflora a criatividade e a interatividade textual entre autor-leitor, e serve pra gente escrever sobre ela quando não se tem um assunto que leve ao ponto final, como no caso deste escrito aqui, sem fim, sem nenhum ponto, apenas três...

sábado, 1 de setembro de 2012

Preguiça


Perdoe-me, padre, pois pequei. Tenho cometido constantemente um dos sete pecados capitais, e talvez o mais terrível deles: a preguiça. Ando muuiiito preguiçoso, até pra blogar.  Pior é que sempre condenei os preguiçosos e agora parece que estou me transformando numa dessas escórias da sociedade. Mas acho que minha penitência não há de ser tão dura, já que minha preguiça até que tem sido produtiva. Por exemplo, tenho adorado ficar assistindo programas de gastronomia na TV, imaginando um  dia fazer aqueles malabarismos culinários que aqueles chefs exibicionistas apresentam durante o preparo de um prato qualquer, mesmo consciente de que minhas habilidades nesta área esgotam-se no hambúrguer com ovo. Fico encantado com a destreza daquelas pessoas ao lidarem com uma faca mega afiada dilacerando  os ingredientes. Larguem uma daquelas facas na minha mãoe o estrago estara feito, na minha própria mão, claro. E nos ingredientes também... Já fiz algumas peripécias na cozinha, mas prefiro não comenta-las aqui para evitar deboches desnecessários.
    Sobre a preguiça, tem um livro chamado Devagar, de Carl Honoré.em que ele diz que a preguiça pode inspirar genialidade! O que me conforta. Não que a preguiça me faça ser genial (quem dera), mas pelo menos deixa a consciência um pouco menos pesada.Tem também um britânico chamado Hodgkinson, que também escreveu sobre o ócio. Ele diz que Descartes só saía da cama depois de receber baldes d´água na cabeça. Ficava lá deitado, pensando, pensando. Se tivesse levantado cedo, acabaria ocupado com as tarefas diárias corriqueiras, deixando o mundo sem a famosa frase em latim que nem precisa tradução: cogito, ergo sum. Outro exemplo? Marcel Proust, que fingia doença pra ficar o dia na cama, pensando. Graças a isso, pôde escrever Em Busca do Tempo Perdido.  Se bem que o Paulo Coelho disse que o livro  de 3.500 páginas poderia ser resumido a um tuíte. Não me espanta essa declaraçao, pois os livros do Coelho mal dariam uma pílula de sabedoria.
Enfim, sigo preguiçoso nesse fim de semana, aguardando virar gênio. 

sábado, 28 de abril de 2012

Sem palavras e sem assunto


O texto abaixo já publiquei no outro blog, mas repito aqui por não ter assunto e pra não deixar em branco esse fim-de-semana cinza.

Vazio
Sem assunto, prometo não falar do tempo nem do vazio. Aliás, esse não ter assunto  acaba servindo para muito, principalmente para postar algo, preencher a página em branco  e manter o blog atualizado. Muita gente nesse mundão já escreveu sobre o vazio. O vazio da existência, da criatividade, da barriga, do universo, da sala, da cama, da cadeira, das ideias, da música sertaneja, do poema rimado, do copo, do corpo, da mente, das palavras erradas, da parede sem quadro, da pasta de dente, e de tudo que se esvai por aí, não sei pra onde, deixando no ar um certo, digamos, vazio.

Tem até o vazio moderno e útil, aquele da arte, por exemplo. Houve uma Bienal de SP alguns anos atrás cujo tema foi exatamente o vazio. A proposta era deixar o segundo andar do pavilhão vazio. Isso mesmo: uma exposição com nada, nadica, necas. Corredores vazios. Segundo os curadores, com o objetivo de evidenciar a arte e fazer as pessoas refletirem. Bueno, a pessoa paga para andar pelos corredores vazios da Bienal de SP e depois não comenta nada. Missão cumprida. Melhor refletir pescando. Até me deu vontade de pescar, seja lá como se faz isso. Com certeza não pegaria nada. Pescaria vazia.

Voltarei com algo mais concreto. 

Pra concluir, sem mais evasivas, e sem mais palavras, reproduzo aqui um  Arnaldo Antunes que tem a ver com esse assunto branco.

Eu apresento a página branca.Contra:

Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.
A árvore sem sementes.
O vidro sem nada na frente.
Contra a água.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Há 22 anos


Há 22 anos entregaram-me nos braços a minha menina, de olhos arregalados a me fitar com a cumplicidade de muitas vidas. Nem parecia recém chegada ao mundo, tamanha esperteza. Linda como a borboleta colorida que acabou de sair do casulo. Lógico que não precisaram bater na minha bunda para ouvir meu primeiro choro, pois a minha menina chegou e comoveu.
Subi as escadas com a minha menina no colo rumo ao berço da maternidade como quem flutua, e as minhas lágrimas pareciam dar-lhe o primeiro banho. Um banho de riso, de baba, um banho de não caber em si...Sentia um tremor vindo das entranhas de um ser pai que carrega seu pequeno ser no primeiro encontro da vida cruzada para sempre.
Minhas pernas, bambas, venciam lentamente cada degrau da escada ao mesmo tempo em que eu balbuciava palavras um tanto desconexas para quem acabara de chegar, mas certamente a minha menina as entendia. Estava estampado no olhar marejado daquele que a carregava para a cruzada da vida. 
Subíamos juntos os primeiros degraus de uma longa história escrita entre risos e choros, a ser lembrada pela mamadeira na madrugada fria servida com a tampa aberta; a fralda trocada desajeitadamente; a primeira caminhada na praça; o dodói causado pelo primeiro tombo de bicicleta; o passeio com a roupa apertada do irmão pequeno...entre tantas proezas de um ser pai desajeitado e apaixonado pelo ser filha.
Dizia o poeta que para saber os filhos é preciso tê-los. Eu tenho. Eu sei. E garanto: é melhor tê-los.
Há 22 anos. Dia 25 de abril de 1990, às 17h12min. 
Feliz Aniversário, filhota.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Narcisos


Hoje me encontrei lendo a coluna do Pondé na Folha de S.Paulo (reproduzida abaixo), pois sempre fui meio arredio às redessociais, por não achar muito o que fazer nelas e com elas. Mas sempre acabei cedendo aos apelos da modernidade e lá estou no Face, meio perdido, meio cão sem dono. Nunca sei o que responder quando sou citado, cutucado, comentado... Então, o Pondé me tirou um peso ao falar sobre o narcisismo no "Face". Leiam abaixo e  compreendam-me.

Narcisismo no "Face"
Luiz Felipe Pondé
Não estou a menosprezar os medos humanos; muito pelo contrário, o medo é o meu irmão gêmeo
Cuidado! Quem tem muitos amigos no "Face" pode ter uma personalidade narcísica. Personalidade narcísica não é alguém que se ama muito, é alguém muito carente.
Faço parte do que o jornal britânico "The Guardian" chama de "social media sceptics" (céticos em relação às mídias sociais) em um artigo dedicado a pesquisas sobre o lado "sombrio" do Facebook (22/3/2012).
Ser um "social media sceptic" significa não crer nas maravilhas das mídias sociais. Elas não mudam o mundo. Aliás, nem acredito na "história", sou daqueles que suspeitam que a humanidade anda em círculos, somando avanços técnicos que respondem aos pavores míticos atávicos: morte, sofrimento, solidão, insegurança, fome, sexo. Fazemos o que podemos diante da opacidade do mundo e do tempo.
As mídias sociais potencializam o que no humano é repetitivo, banal e angustiante: nossa solidão e falta de afeto. Boas qualidades são raras e normalmente são tão tímidas quanto a exposição pública.
E, como dizia o poeta russo Joseph Brodsky (1940-96), falsos sentimentos são comuns nos seres humanos, e quando se tem um número grande deles juntos, a possibilidade de falsos sentimentos aflorarem cresce exponencialmente.
Em 1979, o historiador americano Christopher Lasch (1932-94) publicava seu best-seller acadêmico "A Cultura do Narcisismo", um livro essencial para pensarmos o comportamento no final de século 20. Ali, o autor identificava o traço narcísico de nossa era: carência, adolescência tardia, incapacidade de assumir a paternidade ou maternidade, pavor do envelhecimento, enfim, uma alma ridiculamente infantil num corpo de adulto.
Não estou aqui a menosprezar os medos humanos. Pelo contrário, o medo é meu irmão gêmeo. Estou a dizer que a cultura do narcisismo se fez hegemônica gerando personalidades que buscam o tempo todo ser amadas, reconhecidas, e que, portanto, são incapazes de ver o "outro", apenas exigindo do mundo um amor incondicional.
Segundo a pesquisa da Universidade de Western Illinois (EUA), discutida pelo periódico britânico, "um senso de merecimento de respeito, desejo de manipulação e de tirar vantagens dos outros" marca esses bebês grandes do mundo contemporâneo, que assumem que seus vômitos são significativos o bastante para serem postados no "Face".
A pesquisa envolveu 294 estudantes da universidade em questão, entre 18 e 65 anos, e seus hábitos no "Face". Além do senso de merecimento e desejo de manipulação mencionados acima, são traços "tóxicos" (como diz o artigo) da personalidade narcísica com muitos amigos no "Face" a obsessão com a autoimagem, amizades superficiais, respostas especialmente agressivas a supostas críticas feitas a ela, vidas guiadas por concepções altamente subjetivas de mundo, vaidade doentia, senso de superioridade moral e tendências exibicionistas grandiosas.
Pessoas com tais traços são mais dadas a buscar reconhecimento social do que a reconhecer os outros.
Segundo o periódico britânico, a assistente social Carol Craig, chefe do Centro para Confiança e Bem-estar (meu Deus, que nome horroroso...), disse que os jovens britânicos estão cada vez mais narcisistas e reconhece que há uma tendência da educação infantil hoje em dia, importada dos EUA para o Reino Unido (no Brasil, estamos na mesma...), a educar as crianças cada vez mais para a autoestima.
Cada vez mais plugados e cada vez mais solitários. Na sociedade contemporânea, a solidão é como uma epidemia fora de controle.
O Facebook é a plataforma ideal para autopromoção delirante e inflação do ego via aceitação de um número gigantesco de "amigos" irreais. O dr. Viv Vignoles, catedrático da Universidade de Sussex, no Reino Unido, afirma que, nos EUA, o narcisismo já era marca da juventude desde os anos 80, muito antes do "Face".
Portanto, a "culpa" não é dele. Ele é apenas uma ferramenta do narcisismo generalizado. Suspeito muito mais dos educadores que resolveram que a autoestima é a principal "matéria" da escola.
A educação não deve ser feita para aumentar nossa autoestima, mas para nos ajudar a enfrentar nossa atormentada humanidade.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Hoje tem manifestação pelo diploma de jornalista

Hoje tem manifestação em todo o país em defesa da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Em Pelotas, os estudantes e profissionais estarão no Chafariz do Calçadão a partir das 14h para buscar apoio popular a esta causa que é de toda a sociedade, não apenas de uma categoria profissional.
Aproveito para republicar aqui um texto que escrevi quando o STF deu o golpe fatal, derrubando a obrigatoriedade do diploma:


O jornalista, o cozinheiro,  o costureiro e seu  "meretríssimo"
Debaixo de suas togas emboloradas, os ministros do STF ridicularizaram, galhofaram, zombaram da profissão de jornalista em sessão histórica nesta quarta-feira. Entre as tantas sandices que exalaram das cabeças privilegiadas dos magistrados nas justificativas de seus votos, os homens de preto que compõem a mais alta côrte do Brasil chegaram a comparar o trabalho do jornalista ao de um costureiro ou cozinheiro. Nada contra as laboriosas classes que  fazem a alegria de quem ainda pode freqüentar atelier e restaurante neste país, mas equiparar a importância dessas profissões diante da sociedade é, no mínimo, debochar de nossa inteligência. Em poucas horas, os morcegos da justiça, os Batmen da realidade, Jogaram no lixo a história de uma profissão fundamental para a própria existência da sociedade.  Enterraram na vala imunda da Justiça anos de estudos, de pesquisas, de construção do conhecimento na área da Comunicação. 
Com frágeis frases de efeito e retóricas típicas da magistratura, num simplismo de assustar o mais simplório dos seres humanos, acabaram com uma conquista de toda a sociedade brasileira, negando o reconhecimento de uma  profissão que mexe com consciências e com o imaginário coletivo. Profissão essa que deveria ser tratada com um mínimo de respeito por aqueles que julgam , entre outras coisas, a profissão alheia, mesmo que não tenham  a mínima noção do que essa profissão representa para a sociedade.
Esses senhores, arautos da justiça, mexeram com a vida de milhares de jovens que buscam nos cursos de Jornalismo o conhecimento científico para lidar com o processo informativo  como deve ser tratado, ou seja, como ciência, ciência social aplicada, coisa que os ministros, ao que parece, não fazem ideia do que seja. Julgaram sem ter um mínimo de conhecimento do significado daquilo que julgaram. Sem escrúpulos e nenhum constrangimento, apedrejaram profissionais sem ter noção das graves consequências de seus atos.
Mal sabem eles que um mau jornalista pode ser mais nocivo que um mau médico, pois se o médico, ao operar uma pessoa tira o coração em vez do rim, mata aquela pessoa. Já o jornalista, ao errar uma informação, pode aniquilar uma sociedade inteira. Um mau juiz do STF pode fazer um mal ainda maior ao libertar bandidos como Daniel Dantas, como o fez o ministro Gilmar Mendes em outro ataque de ignorância explícita. É essa a Justiça , dita cega e neutra, que tem o poder de apontar como deve se fazer jornalismo neste país? É a Justiça mais uma vez a serviço de interesses escusos, irresponsavelmente alheia ao interesse coletivo.
Em nome da liberdade de expressão, o STF criminosamente tirou nada mais do que a liberdade de se fazer jornalismo responsável. Preferiu valorizar a liberdade dos empresários da comunicação, que agora podem contratar, livremente, para fazer reportagens, advogados desempregados, juízes corruptos, médicos inescrupulosos que só conhecem as viroses, e, porque não, traficantes de crack para escrever sobre esse assunto tão em moda nos meios de comunicação. Essa é a lógica.
Afinal, quem são esses senhores, que se colocam como casta privilegiada, para decidir os rumos da comunicação de um país?Melhor mesmo a deusa Themis manter a venda nos olhos, se não, é capaz de pegar a própria espada para cortar o pescoço de seus súditos e jogá-los na balança batizada.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Pelotas rumo aos 200 anos: à espera do resgate histórico


     Bailes opulentos, presença de grandes companhias de teatro, musicais nacionais e internacionais, soirés. A elite pelotense do século XIX vivia assim.  Quer dizer, isso quando estava no Brasil, porque os barões do charque tiravam longas temporadas na Europa. Sabiam viver numa época em que Pelotas era o único centro de produção de charque do país, atividade que perdurou por mais de um século, até meados dos anos 20 do século passado, quando a crise do charque trouxe a decadência econômica da região.
     
       Mas aquele cotidiano de ostentação tinha uma questionável origem: a intensa exploração da mão de obra escrava. Historiadores afirmam que o trabalho nas charqueadas era tão estafante que havia inclusive o trabalho compulsório dos negros. A jornada chegava a 16 horas diárias e, no período das entressafras, eram deslocados para as olarias, onde fabricavam os tijolos para a construção dos famosos casarões que hoje encantam turistas no centro da cidade.

Tratados com rigor e violência, muitos negros tentavam fugas, cometiam suicídios, abortos e infanticídios. Era a reação de toda uma população contra uma desumanidade. Em 1858 contavam-se 70.880 escravos em Pelotas, cerca de 25% da população. Dois anos depoi, esse número subiu para 76.109. 

Os escravos eram submetidos a todo de tortura física, moral e psicológica. As punições corporais agiam como forma de controle social, e o aparato repressivo compreendiam vários e eficazes mecanismos.

Com isso, houve uma grande expansão das charqueadas, colocando Pelotas na condição de verdadeira capital econômica da província, vindo a se envolver em todas as grandes causas cívicas. Pelotas transformou-se numa das mais importantes cidades da chamada Província Riograndense.
Decadência
Toda aquela opulência do séc. XIX acabou praticamente junto com o fim da escravidão no Brasil, quando a cidade entrou em franca decadência econômica a partir da década de 20, e o que ficou foram alguns casarões e milhares de escravos livres a procura de dignidade.

Agora que a cidade se prepara para as comemorações do bicentenário, é de se esperar um resgate de sua verdadeira história, que encontra-se ainda parcialmente visualizada através de seus prédios, praças e outros vestígios de um passado economicamente rico e politicamente influente, mas com uma enorme dívida histórica com aqueles que eram os verdadeiros responsáveis por aquela abundância, a um custo altíssimo, diga-se.

sábado, 24 de março de 2012

Recomeço sem palavras


Enfim, de volta às palavras. Na verdade, sem muitas palavras, ou mesmo sem nenhuma. Ou ainda uma misturança delas, jogadas aqui com ou sem sentido lógico. Vontade de voltar ao blog só com o branco da página, pois dizem que o branco é a cor da luz ou a junção de todas as cores. Então, hoje estou iluminado e colorido e vou falar do branco colorido de uma página de blog que não diz absolutamente nada. O que se vê aqui, amigos, são apenas manchas, palavras que surgem do nada num branco que grita pálido de tanto, como dizia ele, o bandido Leminski, o poeta maldito.

Mas postar é preciso, então retomo o blog com essas não-palavras, que vão se unindo, como tipos móveis a juntarem-se na caixinha que formam frases a serem impressas manualmente numa página....em branco. (Ah...falarei dos tipógrafos em outra oportunidade)

Mas continuemos dizendo nada neste recomeço. O branco tem muitos significados: pureza e paz tavez sejam os mais comuns. Dizem também que é a cor da alma, da graça, até do idealismo, das estátuas de mármore, dos aventais, da candura, da sabedoria pelos cabelos... ah, até o cavalo do Napoleão, aquele que perdeu a guerra numa posição, digamos, incômoda, dizem que era branco.

Nada melhor do que reativar o Sempalavras sem palavras. Me aguentem agora.