domingo, 28 de outubro de 2012

Felicidade às avessas


É, mesmo pelo avesso, parece que a cidade dormirá feliz. Assim quis a imensa maioria. O que faltou para a estrela brilhar? Alma, coração, bandeira espontânea. O que sobrou: militäncia paga nas esquinas segurando bandeiras sem nenhuma   convicção. Sobrou desilusão    com um projeto que nasceu liso, limpo, útópico,  puro mas que ao longo do tempo entregou-se ao sistema para sobreviver nele. 

Sou do tempo em que para colocar bandeira do meu candidato no carro, tinha que pagar por ela, e pagava com gosto. Sou do tempo da política feita com muita paixao e pouco dinheiro. Hoje, ao contrário, só se faz campanha com muito dinheiro e nenhuma paixao.  

Mas mesmo assim precisamos dormir felizes, porque política nao é sinonimo de eleicao tao somente. Política é a pratica cotidiana da solidariedade, da busca diária pelo prazer comum. Respirar é um ato político, entao, respiremos fundo e vamos começar tudo de novo, fazendo, de cada ato da vida, uma  ação política. 

Virão outros outubros?

"Outros outubros virão, outras manhãs...plenas de sol e de luz". Nós, estudantes da esquerda, militantes e agitadores em geral, dizíamos que essa música era uma referência à revolução bolchevique. Fernando Brant, o autor, nunca assumiu isso, mas nós cantávamos aos quatro ventos...quem sabe não acontecia de no Brasil o carnaval ser transformado em barricadas revolucionárias...sabe-se lá.  

O tempo passou e os outros outubros não vieram.

 

sábado, 27 de outubro de 2012

Neste domingo, a minha cidade dormirá feliz



Amanhã, quando acordar, antes de ir a sua seção eleitoral, dê uma espiadela na janela do tempo e observe que ele passou rápido demais, tão rápido que a cidade parece a mesma de quatro anos atrás, ou de oito anos , se não estiver pior.

Amanhã, o dia vai nascer angustiado,  mas vai terminar sorrindo, porque as urnas estarão   recheadas de votos que mudarão radicalmente o cotidiano da cidade a partir do ano que vem.  

Amanhã, a minha  cidade dormirá  mais feliz  porque o velho travestido estará derrotado por aqueles que sonham com uma cidade melhor e poderão, enfim, olhar para o horizonte e sonhar um sonho possível. O sonho de uma cidade que sorri.  O velho com cara de menino finalmente terá sua  máscara arrancada e assumirá sua real identidade, a mesma  que deixou   nossa cidade mais triste e sombria.

Amanhã, a minha cidade sorrirá antes do sol se esconder, porque as urnas dirão que a partir do ano que vem estaremos prontos para o recomeço. Sim, recomeço, porque a minha cidade está carcomida pela política da velha elite que há muito parece se esforçar para mante-la triste,  Então,  é preciso recomeçar. É preciso abrir a janela e deixar o sol entrar para espantar o mofo e os morcegos que insistem em sugar nossa energia ao longo dos últimos anos e que ainda querem sugar até a última gota.

A  minha cidade merece, enfim, dias mais coloridos. A minha cidade quer ver voando por aí borboletas coloridas, não morcegos sanguessugas.

A minha cidade merece respirar. A minha cidade quer renascer e viver novos tempos. A minha cidade quer um longo banho, pois está  imunda. A minha cidade estará, a partir de amanhã, ao final dia ,  definitivamente renovada e feliz, contando as horas para janeiro chegar, e, com ele, a alegria das inúmeras possibilidades que virão com este novo e promissor tempo.

A minha cidade merece uma  real mudança, e esta mudança tem nome: MARRONI PREFEITO.  



terça-feira, 23 de outubro de 2012

Ponteiros idiotas, que não param nunca



Vinte e três de dez, e cá estou eu de novo, às voltas com ele, o tempo. Tempo, tempo...quem o mede? Quanto tempo leva um ano para ficarmos mais velhos? Velho "é os trapo", dizia minha vó pegando sol na praia aos 90, com os braços esticados "pra queimar parelho". Então, não me convence esta passagem biológica. Mas também não resisto e dou uma espiadela para trás, de canto de olho, e vejo que ele, o tempo, foi-se...ou veio, não sei. Marcas? Muitas. Mas quem marca o tempo? Vinte e três de dez. 
Olha ele aí de novo, a marcar a passagem. O primeiro que me vem à lembrança foi o dos cinco, que chegou embrulhado num pacote lindo a esconder um caminhão de madeira, enorme, azul e muito pesado. Tenho a nítida impressão de que vim ao mundo de carona naquele caminhão. O menino de calças-curtas na boléia do pesado Mercedão azul. 
Tempo, tempo...quem o mede? A concretude do relógio me irrita profundamente (não param nunca aqueles ponteiros idiotas, que a todo momento me dizem que o último segundo já não é mais). E o sol passa todos os dias à mesma hora pela minha janela, jogando na minha cara que o espelho é liso e que o caminhão de madeira já não existe mais. Mas há o meu tempo, interno, a ressoar sem ponteiros. É o tempo medido por mim mesmo em infinitas e íntimas badaladas. Vinte e três de dez de mil novecentos e...não, não. Não vale a pena marcar. Dois mil e doze é hoje, sem tempo a perder. 
Vinte e três de dez, de novo.  Ainda estou por aqui, por aí, pulsando, tentando me decifrar. O tempo passa, mas não decifra por si. Amanhã já é outro ano, anunciando o enigma de mais dias que virão circularmente, numa estranha espiral em que eu deslizo e de quando em quando, marco a passagem, fazendo pedidos, fazendo acordos com ele, o tempo.