terça-feira, 10 de abril de 2012

Pelotas rumo aos 200 anos: à espera do resgate histórico


     Bailes opulentos, presença de grandes companhias de teatro, musicais nacionais e internacionais, soirés. A elite pelotense do século XIX vivia assim.  Quer dizer, isso quando estava no Brasil, porque os barões do charque tiravam longas temporadas na Europa. Sabiam viver numa época em que Pelotas era o único centro de produção de charque do país, atividade que perdurou por mais de um século, até meados dos anos 20 do século passado, quando a crise do charque trouxe a decadência econômica da região.
     
       Mas aquele cotidiano de ostentação tinha uma questionável origem: a intensa exploração da mão de obra escrava. Historiadores afirmam que o trabalho nas charqueadas era tão estafante que havia inclusive o trabalho compulsório dos negros. A jornada chegava a 16 horas diárias e, no período das entressafras, eram deslocados para as olarias, onde fabricavam os tijolos para a construção dos famosos casarões que hoje encantam turistas no centro da cidade.

Tratados com rigor e violência, muitos negros tentavam fugas, cometiam suicídios, abortos e infanticídios. Era a reação de toda uma população contra uma desumanidade. Em 1858 contavam-se 70.880 escravos em Pelotas, cerca de 25% da população. Dois anos depoi, esse número subiu para 76.109. 

Os escravos eram submetidos a todo de tortura física, moral e psicológica. As punições corporais agiam como forma de controle social, e o aparato repressivo compreendiam vários e eficazes mecanismos.

Com isso, houve uma grande expansão das charqueadas, colocando Pelotas na condição de verdadeira capital econômica da província, vindo a se envolver em todas as grandes causas cívicas. Pelotas transformou-se numa das mais importantes cidades da chamada Província Riograndense.
Decadência
Toda aquela opulência do séc. XIX acabou praticamente junto com o fim da escravidão no Brasil, quando a cidade entrou em franca decadência econômica a partir da década de 20, e o que ficou foram alguns casarões e milhares de escravos livres a procura de dignidade.

Agora que a cidade se prepara para as comemorações do bicentenário, é de se esperar um resgate de sua verdadeira história, que encontra-se ainda parcialmente visualizada através de seus prédios, praças e outros vestígios de um passado economicamente rico e politicamente influente, mas com uma enorme dívida histórica com aqueles que eram os verdadeiros responsáveis por aquela abundância, a um custo altíssimo, diga-se.

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