terça-feira, 4 de setembro de 2012

Reticências


"Eu acho que não sei fechar ciclos, colocar pontos finais. Comigo são sempre vírgulas, aspas, reticências." (Caio Fernando Abreu)

Este blog anda tão sem palavras que até justifica o nome, apesar do nome não ter nada a ver com isso, e sim com o livro sem palavras da Clarice...mas a explicação até cabe nesse momento, literalmente, sem palavras, ou seja, mudo ando e mudo ficarei no aconchego da concha, pois troquei o ponto final da frase pelas reticências..., quer dizer, elas, as  reticências, permitem fantasiar, divagar, continuar, sonhar... elas põem um fim ao fim-de-frase e colocam um novo recomeço logo ali, onde o ponto antes colocava um ponto-final em alguma história, mas elas, as reticências, resistem para estimular nossa criatividade e fazer parte do imaginário humano - demasiado humano como diria Nietzche....já que o simbólico "3 pontinhos" aponta para o nada e o tudo, para a sensação das infinitas possibilidades, ou para nenhuma, sim, ou, quem sabe, para o mundo de Alice ou, ainda, para os sonhos quixotescos onde todas as possibilidades são possíveis, como uma sobrancelha que levanta quando não sabe a resposta à pergunta que não foi feita...
O sempalavras tá sem respostas à falta de palavras, mas tenta respondê-las com reticências...elas, tão detestadas pela ciência que só admite conclusões e pontos finais, nada de possibilidades ou duplo sentido...não, não, aqui o sentido é duplo e o ponto, triplo... as idéias não são friamente assassinadas por um maldito ponto final, e vale a continuidade de quem passa por aqui, ou não...talvez...o que virá?...melhor ser infinito do que definitivo e pontual, assim são eles também, os sonhos, que não envelhecem segundo o Beto Guedes, pois são feitos de reticências e acontecem com a possibilidade de serem materializados, não num ponto final ou sonho final, mas em outros e outros e outros...
Eles, os três pontinhos têm até verbo no dicionário, sabiam? Reticenciar...tá lá no Aurelião: “Exprimir de modo reticente, incompleto”...a meu ver, uma fragilíssima definição, pois nada mais completo do que as reticências, que permitem a divagação, aflora a criatividade e a interatividade textual entre autor-leitor, e serve pra gente escrever sobre ela quando não se tem um assunto que leve ao ponto final, como no caso deste escrito aqui, sem fim, sem nenhum ponto, apenas três...

sábado, 1 de setembro de 2012

Preguiça


Perdoe-me, padre, pois pequei. Tenho cometido constantemente um dos sete pecados capitais, e talvez o mais terrível deles: a preguiça. Ando muuiiito preguiçoso, até pra blogar.  Pior é que sempre condenei os preguiçosos e agora parece que estou me transformando numa dessas escórias da sociedade. Mas acho que minha penitência não há de ser tão dura, já que minha preguiça até que tem sido produtiva. Por exemplo, tenho adorado ficar assistindo programas de gastronomia na TV, imaginando um  dia fazer aqueles malabarismos culinários que aqueles chefs exibicionistas apresentam durante o preparo de um prato qualquer, mesmo consciente de que minhas habilidades nesta área esgotam-se no hambúrguer com ovo. Fico encantado com a destreza daquelas pessoas ao lidarem com uma faca mega afiada dilacerando  os ingredientes. Larguem uma daquelas facas na minha mãoe o estrago estara feito, na minha própria mão, claro. E nos ingredientes também... Já fiz algumas peripécias na cozinha, mas prefiro não comenta-las aqui para evitar deboches desnecessários.
    Sobre a preguiça, tem um livro chamado Devagar, de Carl Honoré.em que ele diz que a preguiça pode inspirar genialidade! O que me conforta. Não que a preguiça me faça ser genial (quem dera), mas pelo menos deixa a consciência um pouco menos pesada.Tem também um britânico chamado Hodgkinson, que também escreveu sobre o ócio. Ele diz que Descartes só saía da cama depois de receber baldes d´água na cabeça. Ficava lá deitado, pensando, pensando. Se tivesse levantado cedo, acabaria ocupado com as tarefas diárias corriqueiras, deixando o mundo sem a famosa frase em latim que nem precisa tradução: cogito, ergo sum. Outro exemplo? Marcel Proust, que fingia doença pra ficar o dia na cama, pensando. Graças a isso, pôde escrever Em Busca do Tempo Perdido.  Se bem que o Paulo Coelho disse que o livro  de 3.500 páginas poderia ser resumido a um tuíte. Não me espanta essa declaraçao, pois os livros do Coelho mal dariam uma pílula de sabedoria.
Enfim, sigo preguiçoso nesse fim de semana, aguardando virar gênio.