sexta-feira, 21 de junho de 2013


Um estranho na passeata

Usei camiseta pelas diretas, fui contra a eleição do Trancredo no Colégio Eleitoral da ditadura,  gritei   Xô Sarney, Fora Collor, carreguei vela pela nomeação do dr. Gigante para reitor da UFPel, parei  ônibus em greve geral, distribuí panfletos em madrugadas frias nas portas de fábricas, li Lênin, Trotsky, Marx, Gramsci.  Empunhei bandeiras  em todas candidaturas do Lula. E chorei quando os dólares apareceram numa cueca suja,  derrubando a estrela das alturas. A mesma estrela que ajudei a colocar no céu.

Ontem,  caminhando naquela passeata gigante,  tudo aquilo voltou. Lembrei de cada panfleto, de cada cartaz colado em muros com cola de farinha e água, de cada palavra-de-ordem rimada e gritada com a alma ... Mas ontem, enquanto caminhada  no meio da multidão,  eu olhava  para   os cartazes tentando  buscar alguma conexão com minha distante militância e... nada. Não havia o que relacionar, pois em passeatas de outros tempos havia um norte. Havia,  naqueles atos, rostos e mãos calejadas, operários, representes de todos grupos de “explorados pelo sistema”. Havia representantes partidários sim, pois vivemos numa democracia representativa que precisa de partidos . O contrário disso ou  é ditadura ou o utópico anarquismo (sociedade sem Estado, que fique claro).  Havia os líderes sindicais, os movimentos sociais organizados. Onde foram parar todos? Parece que foram previamente expulsos da manifestação “popular”.

Se i la, ontem eu olhava para os lados  e via rostos limpos e bonitos, roupas de marca e apenas alguns remanescentes da antiga militância.  Não havia bandeiras de partidos, não tinha liderança, palanque, camisetas politizadas...sequer megafone havia! Apenas cartazes,  alguns engraçados, outros com reivindicações soltas. Não havia palavra de ordem.

Achei bonita a passeata. Bonita e necessária, mas muito estranha.  Ok, o mundo mudou e talvez o jurássico aqui não tenha se dado conta de que militância também precisou romper o século, modernizar-se e acessar o Facebook. Enfim, ainda vou entender todo esse processo e descobrir  qual  meu lugar nesse mundo conectado.  A luta continua!