terça-feira, 23 de outubro de 2012

Ponteiros idiotas, que não param nunca



Vinte e três de dez, e cá estou eu de novo, às voltas com ele, o tempo. Tempo, tempo...quem o mede? Quanto tempo leva um ano para ficarmos mais velhos? Velho "é os trapo", dizia minha vó pegando sol na praia aos 90, com os braços esticados "pra queimar parelho". Então, não me convence esta passagem biológica. Mas também não resisto e dou uma espiadela para trás, de canto de olho, e vejo que ele, o tempo, foi-se...ou veio, não sei. Marcas? Muitas. Mas quem marca o tempo? Vinte e três de dez. 
Olha ele aí de novo, a marcar a passagem. O primeiro que me vem à lembrança foi o dos cinco, que chegou embrulhado num pacote lindo a esconder um caminhão de madeira, enorme, azul e muito pesado. Tenho a nítida impressão de que vim ao mundo de carona naquele caminhão. O menino de calças-curtas na boléia do pesado Mercedão azul. 
Tempo, tempo...quem o mede? A concretude do relógio me irrita profundamente (não param nunca aqueles ponteiros idiotas, que a todo momento me dizem que o último segundo já não é mais). E o sol passa todos os dias à mesma hora pela minha janela, jogando na minha cara que o espelho é liso e que o caminhão de madeira já não existe mais. Mas há o meu tempo, interno, a ressoar sem ponteiros. É o tempo medido por mim mesmo em infinitas e íntimas badaladas. Vinte e três de dez de mil novecentos e...não, não. Não vale a pena marcar. Dois mil e doze é hoje, sem tempo a perder. 
Vinte e três de dez, de novo.  Ainda estou por aqui, por aí, pulsando, tentando me decifrar. O tempo passa, mas não decifra por si. Amanhã já é outro ano, anunciando o enigma de mais dias que virão circularmente, numa estranha espiral em que eu deslizo e de quando em quando, marco a passagem, fazendo pedidos, fazendo acordos com ele, o tempo.

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