sábado, 28 de abril de 2012

Sem palavras e sem assunto


O texto abaixo já publiquei no outro blog, mas repito aqui por não ter assunto e pra não deixar em branco esse fim-de-semana cinza.

Vazio
Sem assunto, prometo não falar do tempo nem do vazio. Aliás, esse não ter assunto  acaba servindo para muito, principalmente para postar algo, preencher a página em branco  e manter o blog atualizado. Muita gente nesse mundão já escreveu sobre o vazio. O vazio da existência, da criatividade, da barriga, do universo, da sala, da cama, da cadeira, das ideias, da música sertaneja, do poema rimado, do copo, do corpo, da mente, das palavras erradas, da parede sem quadro, da pasta de dente, e de tudo que se esvai por aí, não sei pra onde, deixando no ar um certo, digamos, vazio.

Tem até o vazio moderno e útil, aquele da arte, por exemplo. Houve uma Bienal de SP alguns anos atrás cujo tema foi exatamente o vazio. A proposta era deixar o segundo andar do pavilhão vazio. Isso mesmo: uma exposição com nada, nadica, necas. Corredores vazios. Segundo os curadores, com o objetivo de evidenciar a arte e fazer as pessoas refletirem. Bueno, a pessoa paga para andar pelos corredores vazios da Bienal de SP e depois não comenta nada. Missão cumprida. Melhor refletir pescando. Até me deu vontade de pescar, seja lá como se faz isso. Com certeza não pegaria nada. Pescaria vazia.

Voltarei com algo mais concreto. 

Pra concluir, sem mais evasivas, e sem mais palavras, reproduzo aqui um  Arnaldo Antunes que tem a ver com esse assunto branco.

Eu apresento a página branca.Contra:

Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.
A árvore sem sementes.
O vidro sem nada na frente.
Contra a água.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Há 22 anos


Há 22 anos entregaram-me nos braços a minha menina, de olhos arregalados a me fitar com a cumplicidade de muitas vidas. Nem parecia recém chegada ao mundo, tamanha esperteza. Linda como a borboleta colorida que acabou de sair do casulo. Lógico que não precisaram bater na minha bunda para ouvir meu primeiro choro, pois a minha menina chegou e comoveu.
Subi as escadas com a minha menina no colo rumo ao berço da maternidade como quem flutua, e as minhas lágrimas pareciam dar-lhe o primeiro banho. Um banho de riso, de baba, um banho de não caber em si...Sentia um tremor vindo das entranhas de um ser pai que carrega seu pequeno ser no primeiro encontro da vida cruzada para sempre.
Minhas pernas, bambas, venciam lentamente cada degrau da escada ao mesmo tempo em que eu balbuciava palavras um tanto desconexas para quem acabara de chegar, mas certamente a minha menina as entendia. Estava estampado no olhar marejado daquele que a carregava para a cruzada da vida. 
Subíamos juntos os primeiros degraus de uma longa história escrita entre risos e choros, a ser lembrada pela mamadeira na madrugada fria servida com a tampa aberta; a fralda trocada desajeitadamente; a primeira caminhada na praça; o dodói causado pelo primeiro tombo de bicicleta; o passeio com a roupa apertada do irmão pequeno...entre tantas proezas de um ser pai desajeitado e apaixonado pelo ser filha.
Dizia o poeta que para saber os filhos é preciso tê-los. Eu tenho. Eu sei. E garanto: é melhor tê-los.
Há 22 anos. Dia 25 de abril de 1990, às 17h12min. 
Feliz Aniversário, filhota.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Narcisos


Hoje me encontrei lendo a coluna do Pondé na Folha de S.Paulo (reproduzida abaixo), pois sempre fui meio arredio às redessociais, por não achar muito o que fazer nelas e com elas. Mas sempre acabei cedendo aos apelos da modernidade e lá estou no Face, meio perdido, meio cão sem dono. Nunca sei o que responder quando sou citado, cutucado, comentado... Então, o Pondé me tirou um peso ao falar sobre o narcisismo no "Face". Leiam abaixo e  compreendam-me.

Narcisismo no "Face"
Luiz Felipe Pondé
Não estou a menosprezar os medos humanos; muito pelo contrário, o medo é o meu irmão gêmeo
Cuidado! Quem tem muitos amigos no "Face" pode ter uma personalidade narcísica. Personalidade narcísica não é alguém que se ama muito, é alguém muito carente.
Faço parte do que o jornal britânico "The Guardian" chama de "social media sceptics" (céticos em relação às mídias sociais) em um artigo dedicado a pesquisas sobre o lado "sombrio" do Facebook (22/3/2012).
Ser um "social media sceptic" significa não crer nas maravilhas das mídias sociais. Elas não mudam o mundo. Aliás, nem acredito na "história", sou daqueles que suspeitam que a humanidade anda em círculos, somando avanços técnicos que respondem aos pavores míticos atávicos: morte, sofrimento, solidão, insegurança, fome, sexo. Fazemos o que podemos diante da opacidade do mundo e do tempo.
As mídias sociais potencializam o que no humano é repetitivo, banal e angustiante: nossa solidão e falta de afeto. Boas qualidades são raras e normalmente são tão tímidas quanto a exposição pública.
E, como dizia o poeta russo Joseph Brodsky (1940-96), falsos sentimentos são comuns nos seres humanos, e quando se tem um número grande deles juntos, a possibilidade de falsos sentimentos aflorarem cresce exponencialmente.
Em 1979, o historiador americano Christopher Lasch (1932-94) publicava seu best-seller acadêmico "A Cultura do Narcisismo", um livro essencial para pensarmos o comportamento no final de século 20. Ali, o autor identificava o traço narcísico de nossa era: carência, adolescência tardia, incapacidade de assumir a paternidade ou maternidade, pavor do envelhecimento, enfim, uma alma ridiculamente infantil num corpo de adulto.
Não estou aqui a menosprezar os medos humanos. Pelo contrário, o medo é meu irmão gêmeo. Estou a dizer que a cultura do narcisismo se fez hegemônica gerando personalidades que buscam o tempo todo ser amadas, reconhecidas, e que, portanto, são incapazes de ver o "outro", apenas exigindo do mundo um amor incondicional.
Segundo a pesquisa da Universidade de Western Illinois (EUA), discutida pelo periódico britânico, "um senso de merecimento de respeito, desejo de manipulação e de tirar vantagens dos outros" marca esses bebês grandes do mundo contemporâneo, que assumem que seus vômitos são significativos o bastante para serem postados no "Face".
A pesquisa envolveu 294 estudantes da universidade em questão, entre 18 e 65 anos, e seus hábitos no "Face". Além do senso de merecimento e desejo de manipulação mencionados acima, são traços "tóxicos" (como diz o artigo) da personalidade narcísica com muitos amigos no "Face" a obsessão com a autoimagem, amizades superficiais, respostas especialmente agressivas a supostas críticas feitas a ela, vidas guiadas por concepções altamente subjetivas de mundo, vaidade doentia, senso de superioridade moral e tendências exibicionistas grandiosas.
Pessoas com tais traços são mais dadas a buscar reconhecimento social do que a reconhecer os outros.
Segundo o periódico britânico, a assistente social Carol Craig, chefe do Centro para Confiança e Bem-estar (meu Deus, que nome horroroso...), disse que os jovens britânicos estão cada vez mais narcisistas e reconhece que há uma tendência da educação infantil hoje em dia, importada dos EUA para o Reino Unido (no Brasil, estamos na mesma...), a educar as crianças cada vez mais para a autoestima.
Cada vez mais plugados e cada vez mais solitários. Na sociedade contemporânea, a solidão é como uma epidemia fora de controle.
O Facebook é a plataforma ideal para autopromoção delirante e inflação do ego via aceitação de um número gigantesco de "amigos" irreais. O dr. Viv Vignoles, catedrático da Universidade de Sussex, no Reino Unido, afirma que, nos EUA, o narcisismo já era marca da juventude desde os anos 80, muito antes do "Face".
Portanto, a "culpa" não é dele. Ele é apenas uma ferramenta do narcisismo generalizado. Suspeito muito mais dos educadores que resolveram que a autoestima é a principal "matéria" da escola.
A educação não deve ser feita para aumentar nossa autoestima, mas para nos ajudar a enfrentar nossa atormentada humanidade.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Hoje tem manifestação pelo diploma de jornalista

Hoje tem manifestação em todo o país em defesa da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Em Pelotas, os estudantes e profissionais estarão no Chafariz do Calçadão a partir das 14h para buscar apoio popular a esta causa que é de toda a sociedade, não apenas de uma categoria profissional.
Aproveito para republicar aqui um texto que escrevi quando o STF deu o golpe fatal, derrubando a obrigatoriedade do diploma:


O jornalista, o cozinheiro,  o costureiro e seu  "meretríssimo"
Debaixo de suas togas emboloradas, os ministros do STF ridicularizaram, galhofaram, zombaram da profissão de jornalista em sessão histórica nesta quarta-feira. Entre as tantas sandices que exalaram das cabeças privilegiadas dos magistrados nas justificativas de seus votos, os homens de preto que compõem a mais alta côrte do Brasil chegaram a comparar o trabalho do jornalista ao de um costureiro ou cozinheiro. Nada contra as laboriosas classes que  fazem a alegria de quem ainda pode freqüentar atelier e restaurante neste país, mas equiparar a importância dessas profissões diante da sociedade é, no mínimo, debochar de nossa inteligência. Em poucas horas, os morcegos da justiça, os Batmen da realidade, Jogaram no lixo a história de uma profissão fundamental para a própria existência da sociedade.  Enterraram na vala imunda da Justiça anos de estudos, de pesquisas, de construção do conhecimento na área da Comunicação. 
Com frágeis frases de efeito e retóricas típicas da magistratura, num simplismo de assustar o mais simplório dos seres humanos, acabaram com uma conquista de toda a sociedade brasileira, negando o reconhecimento de uma  profissão que mexe com consciências e com o imaginário coletivo. Profissão essa que deveria ser tratada com um mínimo de respeito por aqueles que julgam , entre outras coisas, a profissão alheia, mesmo que não tenham  a mínima noção do que essa profissão representa para a sociedade.
Esses senhores, arautos da justiça, mexeram com a vida de milhares de jovens que buscam nos cursos de Jornalismo o conhecimento científico para lidar com o processo informativo  como deve ser tratado, ou seja, como ciência, ciência social aplicada, coisa que os ministros, ao que parece, não fazem ideia do que seja. Julgaram sem ter um mínimo de conhecimento do significado daquilo que julgaram. Sem escrúpulos e nenhum constrangimento, apedrejaram profissionais sem ter noção das graves consequências de seus atos.
Mal sabem eles que um mau jornalista pode ser mais nocivo que um mau médico, pois se o médico, ao operar uma pessoa tira o coração em vez do rim, mata aquela pessoa. Já o jornalista, ao errar uma informação, pode aniquilar uma sociedade inteira. Um mau juiz do STF pode fazer um mal ainda maior ao libertar bandidos como Daniel Dantas, como o fez o ministro Gilmar Mendes em outro ataque de ignorância explícita. É essa a Justiça , dita cega e neutra, que tem o poder de apontar como deve se fazer jornalismo neste país? É a Justiça mais uma vez a serviço de interesses escusos, irresponsavelmente alheia ao interesse coletivo.
Em nome da liberdade de expressão, o STF criminosamente tirou nada mais do que a liberdade de se fazer jornalismo responsável. Preferiu valorizar a liberdade dos empresários da comunicação, que agora podem contratar, livremente, para fazer reportagens, advogados desempregados, juízes corruptos, médicos inescrupulosos que só conhecem as viroses, e, porque não, traficantes de crack para escrever sobre esse assunto tão em moda nos meios de comunicação. Essa é a lógica.
Afinal, quem são esses senhores, que se colocam como casta privilegiada, para decidir os rumos da comunicação de um país?Melhor mesmo a deusa Themis manter a venda nos olhos, se não, é capaz de pegar a própria espada para cortar o pescoço de seus súditos e jogá-los na balança batizada.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Pelotas rumo aos 200 anos: à espera do resgate histórico


     Bailes opulentos, presença de grandes companhias de teatro, musicais nacionais e internacionais, soirés. A elite pelotense do século XIX vivia assim.  Quer dizer, isso quando estava no Brasil, porque os barões do charque tiravam longas temporadas na Europa. Sabiam viver numa época em que Pelotas era o único centro de produção de charque do país, atividade que perdurou por mais de um século, até meados dos anos 20 do século passado, quando a crise do charque trouxe a decadência econômica da região.
     
       Mas aquele cotidiano de ostentação tinha uma questionável origem: a intensa exploração da mão de obra escrava. Historiadores afirmam que o trabalho nas charqueadas era tão estafante que havia inclusive o trabalho compulsório dos negros. A jornada chegava a 16 horas diárias e, no período das entressafras, eram deslocados para as olarias, onde fabricavam os tijolos para a construção dos famosos casarões que hoje encantam turistas no centro da cidade.

Tratados com rigor e violência, muitos negros tentavam fugas, cometiam suicídios, abortos e infanticídios. Era a reação de toda uma população contra uma desumanidade. Em 1858 contavam-se 70.880 escravos em Pelotas, cerca de 25% da população. Dois anos depoi, esse número subiu para 76.109. 

Os escravos eram submetidos a todo de tortura física, moral e psicológica. As punições corporais agiam como forma de controle social, e o aparato repressivo compreendiam vários e eficazes mecanismos.

Com isso, houve uma grande expansão das charqueadas, colocando Pelotas na condição de verdadeira capital econômica da província, vindo a se envolver em todas as grandes causas cívicas. Pelotas transformou-se numa das mais importantes cidades da chamada Província Riograndense.
Decadência
Toda aquela opulência do séc. XIX acabou praticamente junto com o fim da escravidão no Brasil, quando a cidade entrou em franca decadência econômica a partir da década de 20, e o que ficou foram alguns casarões e milhares de escravos livres a procura de dignidade.

Agora que a cidade se prepara para as comemorações do bicentenário, é de se esperar um resgate de sua verdadeira história, que encontra-se ainda parcialmente visualizada através de seus prédios, praças e outros vestígios de um passado economicamente rico e politicamente influente, mas com uma enorme dívida histórica com aqueles que eram os verdadeiros responsáveis por aquela abundância, a um custo altíssimo, diga-se.