terça-feira, 30 de abril de 2013

Escrevo. E pronto.


O Leminksi é o cara pras horas nenhuma, aquela hora do nada. É como Beatles: não sabe o que ouvir, toca Beatles que não dá erro. Não sabe o que ler? Abre um Leminski em qualquer página e o efeito é o mesmo. O bandido, na verdade, sabia muito mais do que latim. Sabia das coisas, escondido naquele indefectível bigodão. 
Embriague-se e leia Leminski e tudo estará resolvido. Embriague-se das palavras concretas do bandido. “Saio da embriaguez de viver para o sonho de outras esferas”, escreveu ele pouco antes do último sopro de vida. Não tinha pressa pra nada, nem pra fazer um poema. Portanto, também não tenho pressa, apresso-me apenas para me embriagar das palavras, como ele, que escrevia e pronto. 


Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
Hoje bebi Leminski até me embriagar. Estou engasgado com seus poemas e por isso preciso de um café forte que me conforte, que me deixe forte para que, com sorte, encontre não a morte, mas a sorte. A sorte de uma palavra descoberta numa página qualquer de uma noite qualquer sem nenhuma palavra. Sem palavra como esse blog que vos fala, pois já estou tonto como o Bandido. E estou pronto, porque escrevi. Escrevo. E pronto. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Luar e outras luas

Hoje a noite foi de vinho chileno, Odair José, Chico + Elza e Dylan. Não necessariamente nesta ordem, mas numa desordem que ordenou a cabeça agitada do dia burocrático. Algo como o poema do Poe, um corvo:

"Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais."

Uma noite em casa, sem visita, só com o som, tem seu valor. E assim foi a sexta tão esperada, que já virou sábado, que logo vai virar domingo e que..enfim, virá. Dirá a lua maravilhosa, que também já está se esvaindo como o chileno na taça, como o Bob na vitrola velha e sua agulha gasta. Noite solo, com um banquinho e um vinho. Tudo de bom pra mim e meus botões, que há muito reclamavam atenção, assim como esse mofado blog, coitado, que só me vê de quando em muito.

Então tá. Secou a taça, o vinil chegou na última faixa e a lua se foi, entao, me vou também.