Um estranho na passeata
Usei
camiseta pelas diretas, fui contra a eleição do Trancredo no Colégio Eleitoral
da ditadura, gritei Xô Sarney, Fora Collor, carreguei vela pela
nomeação do dr. Gigante para reitor da UFPel, parei ônibus em greve geral, distribuí panfletos em
madrugadas frias nas portas de fábricas, li Lênin, Trotsky, Marx, Gramsci. Empunhei bandeiras em todas candidaturas do Lula. E chorei
quando os dólares apareceram numa cueca suja,
derrubando a estrela das alturas. A mesma estrela que ajudei a colocar
no céu.
Ontem, caminhando naquela passeata gigante, tudo aquilo voltou. Lembrei de cada panfleto,
de cada cartaz colado em muros com cola de farinha e água, de cada palavra-de-ordem
rimada e gritada com a alma ... Mas ontem, enquanto caminhada no meio da multidão, eu olhava
para os cartazes tentando buscar alguma conexão com minha
distante militância e... nada. Não havia o que relacionar, pois em passeatas de
outros tempos havia um norte. Havia,
naqueles atos, rostos e mãos calejadas, operários, representes de todos
grupos de “explorados pelo sistema”. Havia representantes partidários sim, pois
vivemos numa democracia representativa que precisa de partidos . O contrário
disso ou é ditadura ou o utópico anarquismo
(sociedade sem Estado, que fique claro). Havia os líderes sindicais, os movimentos
sociais organizados. Onde foram parar todos? Parece que foram previamente
expulsos da manifestação “popular”.
Se i la, ontem
eu olhava para os lados e via rostos
limpos e bonitos, roupas de marca e apenas alguns remanescentes da antiga militância.
Não havia bandeiras de partidos, não tinha
liderança, palanque, camisetas politizadas...sequer megafone havia! Apenas
cartazes, alguns engraçados, outros com
reivindicações soltas. Não havia palavra de ordem.
Achei bonita
a passeata. Bonita e necessária, mas muito estranha. Ok, o
mundo mudou e talvez o jurássico aqui não tenha se dado conta de que militância também precisou romper o século, modernizar-se e acessar o Facebook. Enfim, ainda vou
entender todo esse processo e descobrir
qual meu lugar nesse mundo
conectado. A luta continua!
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