segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Silêncio ruminante


















Sabe o boi ruminando? A coisa fica ali, de lá pra cá na boca do bicho por horas e horas e...nada. Segue ali, regurgitando e regurgitando. 

Digo isso porque o ato de escrever, para este blogueiro que não bloga, é mais ou menos como esse processo regurgitante e ruminante do boi. O resultado é um blog seco, em que o pasto passou direto pelos compartimentos estomacais bovino e virou esterco, queimando as etapas biológicas. Se bem que o esterco transforma-se em adubo que... enfim.

Acredito definitivamente que o ato de escrever, às vezes, é uma imposição do cérebro aos dedos para que estes dedilhem freneticamente sem parar no alfanumérico teclado para que surjam palavras, umas ligadas às outras, formando frases conexas, ou não.  Já escrevi sobre isso aqui um milhão de vezes, e lendo Visões de Cody, do Kerouac, comprovo minha teoria dedilhante. Dedos no teclado do computador ou nas cordas de guitarra num riff alucinante, é assim que o lendário escritor beat underground produzia suas palavras, desconexas para uns, geniais para outros. É como aquele filme tido como obra prima pelos entendidos mas considerado o próprio esterco do boi por muitos.

Aliás, esse texto está mais pro esterco do boi do que pra qualquer coisa. Mas não desanimo, pois como disse ali no final do primeiro parágrafo, o esterco vai virar adubo para um outro texto que já rumina neste cérebro inquieto.

Sei que já virou clichê citar Clarice na internet, mas ela dizia que toda palavra tem sua sombra e por isso escrevia no escuro: “ouve-me, ouve meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa... capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso. Leia, a energia que está no meu silêncio”.


A linguagem sufoca o silêncio, portanto. Talvez por isso esse blog tem ficado tanto em silêncio, exatamente para não ser sufocado. Pronto, bloguei...regurgitei. Sinto cheiro de esterco no ar.


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